#queroganhar

Apesar de nascida em Maceió, fui criada no interior do interior de Tocantins, em uma escola-fazenda de nome Canuanã que era rodeado pelo verde da floresta, banhada pelas geladas águas do rio Araguaia, repleta de bichos “exóticos” e livre, além de fazer fronteira com terras indígenas. Fui criada solta. As portas estavam sempre abertas e nossa única preocupação era manter sempre fechada a tela que dificultava a entrada dos insetos e caranguejeiras. Lembro-me de como o tempo parecia passar rápido naquele lugar… saia cedo pra jogar bola  na rua com meus amigos e em um piscar de olhos já era noite,  mainha aparecia na porta me chamando pra jantar. “Ahhhh… só mais um pouquinho mãe”. E aquele pouquinho durava boa parte da noite, até já não aguentarmos mais de tanto correr ou até alguém (geralmente eu) se machucar – minha mãe deve ter tido uma visão comigo e, prevendo a filha que teria, teve a brilhante ideia de se especializar em Pediatria; eu fui sua maior paciente, sem dúvida! Todo dia era um lugar diferente pra remendar.

Quando paro pra relembrar a época que vivi em Tocantins, lembro da cor do céu no fim de tarde, do barulho da cigarra e dos pássaros, do cheiro de terra molhada, das fortes chuvas, dos trovões e das estrelas, lembro de todas as frutas que arranquei do pé, dos imensos balanços espalhados pelas árvores, dos acampamentos na beira do rio, das partidas de truco com os amigos e  também de como era bom sentar na calçada da minha casa e conversar com as pessoas que passavam. Em Canuanã todos se conheciam, passei um tempo achando que isso era chato demais, até que, na adolescência, resolvi voltar a morar em Maceió. E aos 15 anos de idade, me vi trancada em um apartamento de 3 andares onde todos se cumprimentavam, mas ninguém se conhecia. Além de uma porta trancada, tinha uma grade com cadeado pra me deixar segura. Mas não deixava. Eu me sentia totalmente desprotegida de todas aquelas pessoas distantes. Na cidade as coisas eram diferentes demais da realidade simples que eu estava acostumada.

Hoje, 9 anos depois de ter voltado pra Maceió, eu não me sinto mais tão perdida quanto antes, mas ainda me sinto extremamente angustiada quando percebo que as crianças de hoje em dia estão sendo entorpecidas por aparelhos eletrônicos e “domesticadas” a brincarem no cubículo do playground de seus condomínios de luxo, enquanto as praças e outros espaços públicos estão abandonados pelo Poder Público e não oferecem se quer uma estrutura digna para que sejam ocupados. As cidades não foram feitas para as pessoas, bom exemplo são as nossas calçadas que não proporcionam um bom passeio, são completamente impróprias para o pedestre e fora dos padrões exigidos. Isso, atrelado à insegurança e outros fatores sociais, contribui para termos uma cidade vazia, sem vida, sem pessoas, diálogo e afeto. Uma verdadeira bola de neve que só tende a crescer.

Por esse e outros motivos é que gosto de me envolver com ações que valorizam os espaços públicos, que fazem a população refletir sobre a qualidade de vida atual. E sempre que conheço alguém que também pensa assim ou que me deparo com algum projeto que busca mudar um pouquinho a realidade cinzenta das nossas cidades, meu coração se enche se esperança. Pequenos gestos e intervenções são capazes de modificar paradigmas – e se não, pelo menos arrancam sorrisos de todos que se envolvem. E isso já não é incrível? Eu acredito na força das pessoas e que juntos podemos construir a cidade (e o mundo) que queremos pra nós, pros nossos filhos e pros nossos netos.

Se mais alguém acreditar, já viramos plural.


 

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Inspirada pelo mês dos namorados e por toda delicadeza dos guardanapos poéticos de Daniel Viana (que já havia comentado aqui nesse post ), resolvi sortear um exemplar do seu livro #100contospor10contostrocados lá na página do Rabiiisco, no Facebook. Visite e veja como participar, o sorteio acontecerá no dia 30/06. Aproveite e comente aqui o que você gostaria que mudasse em sua cidade ou me fale sobre algum projeto de intervenção urbana que tenha conhecimento ou que participe.

😀

Expectativas

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Foi à praia sozinha e de repente conheceu um rapaz sorridente que adorava falar sobre suas viagens pelo Brasil e sobre o gosto pela fotografia; ela, em contrapartida, falou da sua paixão pela dança. Alguns minutos de prosa foram suficientes para que estivessem interessados um pelo outro: ele ficou encantado com a beleza e a elegância dos movimentos da moça e a imaginou no palco, dançando e sorrindo pra ele; enquanto isso, ela pensava quão maravilhoso seria acompanhá-lo em todas essas viagens.

Isso poderia ser o começo de um romance.  Daqueles em que no final o casal vive feliz pra sempre e esse sempre nunca é revelado. Acontece que na vida real todos os romances tendem à tragédias, pois as pessoas insistem em manter relações baseadas em suas próprias expectativas.  E frustram-se, à medida que não são correspondidas.

Que pecado querer moldar alguém. Ter uma pessoa hermeticamente fechada em redomas cheias de regras. Quem é perfeito, afinal? Quem não deixa, vez ou outra, a toalha em cima da cama ou esquece de pagar uma conta no final mês?  Quem não engorda alguns quilos depois de tantos finais de semana saindo pra jantar juntos?  Acontece que infelizmente, ninguém está disposto a encarar o outro nu, conhecê-lo profundamente, aprender a respeitar a sua individualidade e conviver pacificamente.  É mais fácil apontar as falhas e exaltá-las à assumir a rédea da situação e ensinar o outro a enxergar o erro.  Basta uma faísca para despertar as más energias nas relações humanas. E por isso, na maioria das vezes, os relacionamentos não duram.

Precisamos aprender a nos colocar no lugar do outro. A dar, sem esperar algo em troca. A encarar o cotidiano como poesia e enxergar na pessoa ao lado sempre o melhor, para que essa energia permaneça grande no momento de turbulência. É difícil encontrar alguém disposto a dividir, acompanhar e doar amor… mas eu ainda acredito não isso não é impossível.

Delicadeza urbana

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“E que tenha o peso de um pacotinho de suspiro”

Soou poesia e foi o bastante para me sacudir. Fiquei alguns minutos diante do papel encarando aquela frase e, por mais inquieta que eu estivesse naquele momento, tudo pareceu tranquilo. A vida se mostrou bonita outra vez e a vontade de escrever voltou.

Foi assim o meu encontro com “100 contos por 10 contos trocados”, um projeto idealizado pelo mineiro Daniel Viana, que vivenciando o distanciamento das pessoas na grande São Paulo teve sensibilidade e a incrível ideia de trocar causos por contos.  Funciona assim: em algum canto da frenética cidade, lá está o rapaz juntamente com sua mesinha, uma máquina de escrever, guardanapos e uma cadeira vazia à espera de alguém que desacelere o ritmo e se disponha sentar e contar. Simplesmente contar! Amores, desamores, família, trabalho, música, sonho, qualquer coisa. E em troca, Daniel presenteia com lindos poemas datilografados em guardanapos.

Como se a delicadeza de sua escrita, por si só, não fosse suficiente para expressar a grandeza do seu gesto; ouso dizer que existe algo maior a ser refletido. Precisamos pensar sobre a vida que levamos hoje, avaliar as prioridades e traçar um propósito. Tudo evolui, eu sei, mas existem coisas básicas que não devem mudar:  O sorriso, o abraço, a conversa… coisas assim não podem ser perdidas com o tempo. Não podemos deixar que os afazeres, as tecnologias e medo nos ponham dentro de redomas e nos obriguem a viver ali. Ninguém é feliz sozinho, afinal. Precisamos de espaço, movimento, delicadeza e, sobretudo, das pessoas!

 

“Em toda correria, cadeira.
Para e-mails não respondidos, olhos nos olhos.
Para todas as palavras não ditas, papel”

 

 


O livro de Daniel Viana custa 10 reais e pode ser comprado através de sua página no Facebook  – o frete fica por conta do autor. Conheça o projeto: 100 contos por 10 contos trocados

Só ria

Nasceu artista.ilustrador desconhecido
Palhaço há 3 gerações.
Era carma, era sina…
tinha o talento de enganar!

Antes de sair de casa, os últimos retoques
maquiagem, peruca e nariz
tudo que precisava pra parecer feliz.

Cativava a todos 
Sorrisos, piadas, mentiras.
Poema, canção, flor e espinho.

Mentia tanto que acreditava.

Mas no fim do dia o palhaço voltava pra casa
Longe do picadeiro e com a cara já borrada
o sorriso se mostrava amarelo.
A vida parecia sombria.
Buscava nos tragos da vida,
um sopro de esperança.
que nunca achou.

Nasceu palhaço, cresceu poeta e morreu mentindo.

sobre uma saudade

Passaram-se seis anos desde a última vez que nos vimos. Seis longos anos sem nenhuma notícia tua. Já não tenho esperanças de ouvir a tua voz ao atender o telefone. Em breve estarei formada. Teu convite, pra quem eu dou? Se eu casar, quem assumirá o teu lugar ao meu lado? Sua casa desapareceu contigo. As lembranças não. Essas permanecem, junto com o meu amor que será pra sempre teu.

Preciso pensar

Gosto dos encontros e desencontros da vida. Daqueles momentos em que o vento decide soprar o mar pro outro lado, e tudo ganha um novo sentido. Nada está agora como estava ontem, que bom! É uma evolução diária, um movimento que não tem fim.

Hoje, fui dormir pensando em o que deveria fazer para começar a me conhecer de verdade. Já estava sonhando quando de repente acordei um pouco assustada, sem saber quanto tempo havia dormido ou o que deveria fazer. Nesse intervalo, recebo a mensagem de um amigo guru. Eu a li, mas ainda preciso pensar a respeito. Façam o mesmo e depois me digam a que conclusão chegaram:

“As práticas espirituais só adquirem sentido na vida cotidiana. A relação com nossos pais, esposa, marido, filhos, colegas de trabalho e demais seres em todos os planos da existência é o verdadeiro termômetro da prática. Na vida cotidiana, podemos compreender a inseparatividade quando percebemos que a realidade, a paisagem virtual na qual nos sentimos imersos, surge inseparável do conteúdo de nosso coração. Esta compreensão é muito profunda e nos permite uma liberdade antes desconhecida. No momento em que viajamos para “dentro” e transformamos o conteúdo cármico de nosso coração, todo o universo “externo” muda. É surpreendente olhar ao redor com o reconhecimento desta liberdade.”                                 
Lama Padma Samten

Fé na estrada

Colocou um blues pra tocar em sua vitrola e acendeu um cigarro na varanda. Entre um trago e outro ele tentou desesperadamente encontrar alguma coisa que prendesse sua atenção. Observou os carros que passavam levantando poeira dos paralelepípedos da rua, as pessoas indo caminhar com seus cachorros de estimação, o céu sem nuvens, mas nada o preencheu.

Deu o último trago e decidiu deitar na rede para finalmente começar a ler o livro que ganhara três anos atrás.

Mantendo sua estranha mania, abriu em uma folha e focou em uma linhaqualquer: “O que importa não é o destino, é o trajeto”. Foi a primeira coisa que leu daquele livro de 301 páginas. Parou ali, foi o suficiente para despertá-lo.

Lembrou da sua chata rotina, do trabalho que não o valorizava, os amigos que nunca estavam disponíveis para uma partida de war, além das horas em que era obrigado a ficar calado todos os dias pelo simples fato de ser sozinho.

Estava cansado. Daquele apartamento enclausurante e de subir e descer por aquele elevador cheio de pessoas quietas e vazias. Aquilo não era pra ele. Detestava lugares apertado, nasceu com espírito livre e queria se perder. Precisava descobrir Roma! Não, não sentia vontade de saber, mas vontade de descobrir, estar, fazer parte de tudo aquilo que conheceu através dos livros.

Queria conhecer pessoas de pele muito branca, pessoas de pele muito escura, pessoas com cabelos coloridos, longos, curtos ou sem cabelos. Queria beber em um bar diferente, uma bebida diferente e experimentar todas as comidas do cardápio. Queria ir. Dançar um ritmo diferente, ouvir uma banda desconhecida e aprender um instrumento novo. Ver novas paisagens, falar novas línguas e vestir novas roupas. Queria a estrada!

Perder-se no mundo e ir sem medo. Ir sozinho. Descobrir. E finalmente viver.

…e se achar.