Preciso pensar

Gosto dos encontros e desencontros da vida. Daqueles momentos em que o vento decide soprar o mar pro outro lado, e tudo ganha um novo sentido. Nada está agora como estava ontem, que bom! É uma evolução diária, um movimento que não tem fim.

Hoje, fui dormir pensando em o que deveria fazer para começar a me conhecer de verdade. Já estava sonhando quando de repente acordei um pouco assustada, sem saber quanto tempo havia dormido ou o que deveria fazer. Nesse intervalo, recebo a mensagem de um amigo guru. Eu a li, mas ainda preciso pensar a respeito. Façam o mesmo e depois me digam a que conclusão chegaram:

“As práticas espirituais só adquirem sentido na vida cotidiana. A relação com nossos pais, esposa, marido, filhos, colegas de trabalho e demais seres em todos os planos da existência é o verdadeiro termômetro da prática. Na vida cotidiana, podemos compreender a inseparatividade quando percebemos que a realidade, a paisagem virtual na qual nos sentimos imersos, surge inseparável do conteúdo de nosso coração. Esta compreensão é muito profunda e nos permite uma liberdade antes desconhecida. No momento em que viajamos para “dentro” e transformamos o conteúdo cármico de nosso coração, todo o universo “externo” muda. É surpreendente olhar ao redor com o reconhecimento desta liberdade.”                                 
Lama Padma Samten

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Fé na estrada

Colocou um blues pra tocar em sua vitrola e acendeu um cigarro na varanda. Entre um trago e outro ele tentou desesperadamente encontrar alguma coisa que prendesse sua atenção. Observou os carros que passavam levantando poeira dos paralelepípedos da rua, as pessoas indo caminhar com seus cachorros de estimação, o céu sem nuvens, mas nada o preencheu.

Deu o último trago e decidiu deitar na rede para finalmente começar a ler o livro que ganhara três anos atrás.

Mantendo sua estranha mania, abriu em uma folha e focou em uma linhaqualquer: “O que importa não é o destino, é o trajeto”. Foi a primeira coisa que leu daquele livro de 301 páginas. Parou ali, foi o suficiente para despertá-lo.

Lembrou da sua chata rotina, do trabalho que não o valorizava, os amigos que nunca estavam disponíveis para uma partida de war, além das horas em que era obrigado a ficar calado todos os dias pelo simples fato de ser sozinho.

Estava cansado. Daquele apartamento enclausurante e de subir e descer por aquele elevador cheio de pessoas quietas e vazias. Aquilo não era pra ele. Detestava lugares apertado, nasceu com espírito livre e queria se perder. Precisava descobrir Roma! Não, não sentia vontade de saber, mas vontade de descobrir, estar, fazer parte de tudo aquilo que conheceu através dos livros.

Queria conhecer pessoas de pele muito branca, pessoas de pele muito escura, pessoas com cabelos coloridos, longos, curtos ou sem cabelos. Queria beber em um bar diferente, uma bebida diferente e experimentar todas as comidas do cardápio. Queria ir. Dançar um ritmo diferente, ouvir uma banda desconhecida e aprender um instrumento novo. Ver novas paisagens, falar novas línguas e vestir novas roupas. Queria a estrada!

Perder-se no mundo e ir sem medo. Ir sozinho. Descobrir. E finalmente viver.

…e se achar.

Janelas


Da minha janela vejo outras janelas. É certo que também vejo pessoas, mas elas são só o recheio de uma realidade chata e sem cor. As pessoas se observam. E isso é tudo. Não existe contato, troca, nem afeto.
Aqui em frente, por exemplo, vejo um rapaz que, religiosamente acende um cigarro ao descer do sol e, entre um trago e outro, se diverte olhando o trânsito barulhento se formar. No andar de baixo, uma família que certamente é numerosa – concluí isso pela quantidade de roupa estendida diariamente; lavam tanta roupa que não cabe no varal e por isso usam também as janelas para secarem as calças jeans. Aqui ao lado, crianças. Elas me divertem. Consigo ouvir as gargalhadas, os gritos e os choros, mas não as vejo, pois suas janelas são bem protegidas e nunca estão abertas completamente. La no alto, pouco acima do rapaz do cigarro, uma mulher que costuma aparecer enrolada em uma toalha e com outra prendendo os cabelos molhados. Também tem aquela senhorinha da janela do canto. Essa vive gritando coisas aos familiares que já estão fora do prédio; ela talvez não saiba a função do “telefonezinho” que fica próximo à cozinha, mas enfim, deixa ela gritar. Não me atrapalha.
 Estou aqui pensando: o que será que a minha janela conta a todas essas pessoas? Espero que nada! Ou de repente, pouca coisa. Será que já sabem que eu sofro de insônia, deixo copos sujos espalhados pela casa, converso com a televisão enquanto assisto e que as vezes choro quando estou sozinha? Detesto essa distância toda. Queria eu mesmo contar um pouquinho de mim. É chato pensar que em cada janela existe 1, 2, 3… pessoas, várias histórias e eu, aqui, sem conhecer nenhuma. Que horror!!! Logo eu que sempre gostei de sentar na calçada e puxar papo com quem passava. Qualquer hora dessa vou romper essa barreira: parar de reparar nas janelas, sair de casa, escolher uma porta qualquer, tocar a campainha e, diferentemente de quando eu era criança, vou encarar a fera. Não deve ser assim tão difícil quanto parece. De repente, do outro lado também exista alguém querendo conversar.

– Oi, tudo bem!?

Só os loucos sabem

Voltei. Senti saudades de mim.
Como um bicho solto que não consegue firmar moradia e se sentir completo, fui pelo mundo buscando. O quê, quem ou o motivo eu nunca soube. Simplesmente acordei um dia e decidi ir. Pés descalsos por um mundo cheio de espinhos, uma longa caminhada à procura do meu eu.
Visitei lugares e conheci muitas almas descrentes como eu, bebi as mais amargas bebidas e traguei os piores cigarros. Embarquei em conversas profundas e também vazias, fingi gostar de coisas não agradam, falei e ri de assuntos que não me causavam comoção.Vi a morte de perto e a desejei fugir com ela. Mas não fui.
Não morri, mas dormi por muito tempo! Estive com os olhos vendados: cega aos claros sinais de que tudo estava sombrio, triste e falso. Hoje percebo o quanto deixei de ganhar por não acreditar naquilo que via diante dos espelhos ou dos olhos confusos daqueles que temiam por mim.
Anulei a mim e as minhas vontade em nome em troca de companhia e afeto falso. Esqueci de me impor e de carregar a certeza que a minha companhia me basta. Mas que bom que a vida nos dá outras chances. E que bom que eu pude passar por tudo isso e hoje, conseguir respirar tranquila e madura. Pronta pra sorrir e amar. Sem medo, sem dependência e sem pretenções. Das pessoas que mais sugam que doam, quero distancia!
Gosto dos loucos de verdade, daqueles que riem por achar graça, dos que falam sem medo da crítica, dos que não oprimem, que se permitem e que são porque são. Gosto daqueles que são verdadeiramente humanos e entregues à vida. Esses me somam e sabem acompanhar sem querer pra si. O que é ótimo, pois eu sempre preferi os animais aos vampiros!

“Tudo que sobrou de um nada tão vazio, foi um mundo cheio de vida”


Seu (…),

Louco isso de sentir o tempo passar e o coração criar paz, não é? Acalmar os dragões da vida e cuidar das feridas. Perceber que a raiva e a tristeza ja não existem e que deram espaço somente para as boas lembranças de um tempo que passou e não volta. É aí que você percebe que nem tudo foi em vão: valeu a pena, foi importante e que bom que aconteceu. Mas acabou! Acabou, pois tinha de acabar. Foi melhor assim: pra você, pra mim, pra nós. Agradeço os belos momentos e àquele tempo em que me olhou com doçura. Sei que você também terá lembranças boas caso se permita. Isso ninguém nos roubará, querido. Conte comigo sempre, você sabe que esterei aqui se precisar de uma amiga. Fora isso, vamos viver. Eu estou muito bem agora, você tinha razão. Obrigada!

Adeus,

Sempre minha.

Fernanda.

MAR. ACALMA. ALMA. CALMA. MAR

Sou bicho solto. Gosto da leveza, da liberdade, do vento soprando em meus cabelos e do sol aquecendo o meu corpo. Gosto de adrenalina. Necessito de paixão em meus dias, de reciprocidade, daquelas borboletas voando dentro da barriga e do coração batendo rápido. Gosto de beijo na boca e de sexo. De corpos nus, do suor, da entrega, do orgasmo e daquele sono bom depois. Preciso de vida, pra viver! Coisas mornas me destroem por dentro, me transformam em uma pessoa amarga. Sou do mundo, não do submundo: onde tudo precisa ser triste, vazio, escuro e pesado para parecer interessante. Detesto fingir, prefiro fugir, esconder, surpreender. Preciso de vida, pra viver….

… vem comigo, menino.

Senti um aperto. Não era um aperto comum, era um aperto forte, brutal, maldoso, que vinha com intenção de destruir, devastar tudo aquilo que um dia existiu. Era o fim. O fim mais doloroso que alguém pudera sentir, com gosto de lágrimas e sangue, de palavras que não foram ditas ou gestos que ficaram contidos. Uma escuridão dolorosa e vazia, onde não encontrei uma mão de conforto se quer. Anos escorrendo pelo ralo do banheiro em minutos. Medo e dor, era tudo o que conseguia sentir naquele momento. Era o fim. O fim de tudo, o fim de nada. Fiquei só. Tornei-me uno, vazia e dura. E é assim que deve ser…