Sobre amar

O que seria amar senão um sopro? Aquele ventinho gostoso que bate no cangote e faz arrepiar. Relacionar-se com alguém que entende a sua forma de enxergar a vida e, mesmo não concordando, aceita. Que segura sua mão, acaricia o seu rosto e te beija mesmo quando você esqueceu de pagar a conta de luz. Aquele com quem você conversa sobre a vontade de dominar o mundo ou que fica quietinha e, ainda assim, se sente completa. Cujo sorriso é seu maior presente e o abraço sua maior fortaleza. Que te olha apaixonado mesmo com seu mau humor matinal. Amar é deixar livre. Deixar ser. Aceitar e continuar. O amor é um carnaval… cheio de gargalhadas e ressacas! E é isso que o torna algo especial. Ele não é. Ele ‘está sendo’. É o rodopio de uma bailarina que gira leve em um pé só. Não é ímpar, é par e por isso precisa ser recíproco. Sem perder a ternura e a cumplicidade… sigam juntos, sigam soltos, sigam leve. O carnaval nunca acaba!!

O ‘Casaval’, mistura de casamento com carnaval, aconteceu em uma praça com direito à banda, estandarte, serpentinas e tudo mais. (Catraca Livre)

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#queroganhar

Apesar de nascida em Maceió, fui criada no interior do interior de Tocantins, em uma escola-fazenda de nome Canuanã que era rodeado pelo verde da floresta, banhada pelas geladas águas do rio Araguaia, repleta de bichos “exóticos” e livre, além de fazer fronteira com terras indígenas. Fui criada solta. As portas estavam sempre abertas e nossa única preocupação era manter sempre fechada a tela que dificultava a entrada dos insetos e caranguejeiras. Lembro-me de como o tempo parecia passar rápido naquele lugar… saia cedo pra jogar bola  na rua com meus amigos e em um piscar de olhos já era noite,  mainha aparecia na porta me chamando pra jantar. “Ahhhh… só mais um pouquinho mãe”. E aquele pouquinho durava boa parte da noite, até já não aguentarmos mais de tanto correr ou até alguém (geralmente eu) se machucar – minha mãe deve ter tido uma visão comigo e, prevendo a filha que teria, teve a brilhante ideia de se especializar em Pediatria; eu fui sua maior paciente, sem dúvida! Todo dia era um lugar diferente pra remendar.

Quando paro pra relembrar a época que vivi em Tocantins, lembro da cor do céu no fim de tarde, do barulho da cigarra e dos pássaros, do cheiro de terra molhada, das fortes chuvas, dos trovões e das estrelas, lembro de todas as frutas que arranquei do pé, dos imensos balanços espalhados pelas árvores, dos acampamentos na beira do rio, das partidas de truco com os amigos e  também de como era bom sentar na calçada da minha casa e conversar com as pessoas que passavam. Em Canuanã todos se conheciam, passei um tempo achando que isso era chato demais, até que, na adolescência, resolvi voltar a morar em Maceió. E aos 15 anos de idade, me vi trancada em um apartamento de 3 andares onde todos se cumprimentavam, mas ninguém se conhecia. Além de uma porta trancada, tinha uma grade com cadeado pra me deixar segura. Mas não deixava. Eu me sentia totalmente desprotegida de todas aquelas pessoas distantes. Na cidade as coisas eram diferentes demais da realidade simples que eu estava acostumada.

Hoje, 9 anos depois de ter voltado pra Maceió, eu não me sinto mais tão perdida quanto antes, mas ainda me sinto extremamente angustiada quando percebo que as crianças de hoje em dia estão sendo entorpecidas por aparelhos eletrônicos e “domesticadas” a brincarem no cubículo do playground de seus condomínios de luxo, enquanto as praças e outros espaços públicos estão abandonados pelo Poder Público e não oferecem se quer uma estrutura digna para que sejam ocupados. As cidades não foram feitas para as pessoas, bom exemplo são as nossas calçadas que não proporcionam um bom passeio, são completamente impróprias para o pedestre e fora dos padrões exigidos. Isso, atrelado à insegurança e outros fatores sociais, contribui para termos uma cidade vazia, sem vida, sem pessoas, diálogo e afeto. Uma verdadeira bola de neve que só tende a crescer.

Por esse e outros motivos é que gosto de me envolver com ações que valorizam os espaços públicos, que fazem a população refletir sobre a qualidade de vida atual. E sempre que conheço alguém que também pensa assim ou que me deparo com algum projeto que busca mudar um pouquinho a realidade cinzenta das nossas cidades, meu coração se enche se esperança. Pequenos gestos e intervenções são capazes de modificar paradigmas – e se não, pelo menos arrancam sorrisos de todos que se envolvem. E isso já não é incrível? Eu acredito na força das pessoas e que juntos podemos construir a cidade (e o mundo) que queremos pra nós, pros nossos filhos e pros nossos netos.

Se mais alguém acreditar, já viramos plural.


 

promoção

 

Inspirada pelo mês dos namorados e por toda delicadeza dos guardanapos poéticos de Daniel Viana (que já havia comentado aqui nesse post ), resolvi sortear um exemplar do seu livro #100contospor10contostrocados lá na página do Rabiiisco, no Facebook. Visite e veja como participar, o sorteio acontecerá no dia 30/06. Aproveite e comente aqui o que você gostaria que mudasse em sua cidade ou me fale sobre algum projeto de intervenção urbana que tenha conhecimento ou que participe.

😀

Expectativas

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Foi à praia sozinha e de repente conheceu um rapaz sorridente que adorava falar sobre suas viagens pelo Brasil e sobre o gosto pela fotografia; ela, em contrapartida, falou da sua paixão pela dança. Alguns minutos de prosa foram suficientes para que estivessem interessados um pelo outro: ele ficou encantado com a beleza e a elegância dos movimentos da moça e a imaginou no palco, dançando e sorrindo pra ele; enquanto isso, ela pensava quão maravilhoso seria acompanhá-lo em todas essas viagens.

Isso poderia ser o começo de um romance.  Daqueles em que no final o casal vive feliz pra sempre e esse sempre nunca é revelado. Acontece que na vida real todos os romances tendem à tragédias, pois as pessoas insistem em manter relações baseadas em suas próprias expectativas.  E frustram-se, à medida que não são correspondidas.

Que pecado querer moldar alguém. Ter uma pessoa hermeticamente fechada em redomas cheias de regras. Quem é perfeito, afinal? Quem não deixa, vez ou outra, a toalha em cima da cama ou esquece de pagar uma conta no final mês?  Quem não engorda alguns quilos depois de tantos finais de semana saindo pra jantar juntos?  Acontece que infelizmente, ninguém está disposto a encarar o outro nu, conhecê-lo profundamente, aprender a respeitar a sua individualidade e conviver pacificamente.  É mais fácil apontar as falhas e exaltá-las à assumir a rédea da situação e ensinar o outro a enxergar o erro.  Basta uma faísca para despertar as más energias nas relações humanas. E por isso, na maioria das vezes, os relacionamentos não duram.

Precisamos aprender a nos colocar no lugar do outro. A dar, sem esperar algo em troca. A encarar o cotidiano como poesia e enxergar na pessoa ao lado sempre o melhor, para que essa energia permaneça grande no momento de turbulência. É difícil encontrar alguém disposto a dividir, acompanhar e doar amor… mas eu ainda acredito não isso não é impossível.

sem pretensão

Sinto falta da época em que escrever era simples fuga. Quando pegava o caderno, um lápis, rabiscava palavras, despejava sonhos e desespero. Onde não existia cobrança, expectativa e a liberdade era a única exigência. Escrevo por necessidade, por loucura, por paixão, por excitação. Não assinei carteira, continuo livre. Isso é o que sou!

… estando inteiro ou não.

Sobre um alguém desconhecido

Sentou-se na ponta de sua cama, levantou o rosto e encarou o espelho.Para seu espanto, não conseguiu enxergar nada. Olhou por alguns minutos aquele reflexo e nada. Parecia está diante de outro rosto, de um alguém totalmente diferente daquele que tão bem conhecia. O olhar era distante, a expressão, triste. Pensou em sua rotina e percebeu quão monótona e vazia havia se tornado a vida. Nada fazia para o seu bem estar e, assim, ia se anulando cada vez mais. Sabotou-se tanto que nem mais sangrava, tudo era cicatriz indolor que ela brutalmente tampava e não dava atenção. Tornou-se fria, amarga, sem vida. Passou a viver por impulso, por costume e por obrigação. Conseguiu ver tudo isso através do espelho naquela manhã e decidiu tomar uma atitude. Banhou-se com água gelada e se esfregou como se tivesse a intenção de arrancar o encardido. Vestiu-se e saiu de casa, decidindo que aquele seria o primeiro passo para [re]descobrir quem, de fato, ela deveria ter visto no espelho naquela estranha manhã…

Sobre uma confissão

É madrugada, já deitei milhões de vezes e não consigo dormir. Chove la fora e você sabe como detesto dormir sozinha em noites chuvosas. Olho a cama vazia, o travesseiro que ainda tem teu cheiro e recuso acreditar nas escolhas que decidiu tomar.

Coloco Sampaio na vitrola e lembro-me daquelas nossas noites. Vinho na taça, música ao fundo e paixão, muita paixão. A força como nossos corpos se tocava, a dança, o ensaio. A nudez em sua forma poética, o amor em seu estado de graça, a paixão em seu estado de fúria. Lençóis molhados, corpos unidos e uma única a vontade. Lembro da sua mão no meu corpo, do seu rosto olhando o meu, das suas pernas. Cansaço, carinho, sonolência.

Como você pode achar que isso não me faria falta? Mais ainda, como você pôde abrir mão de todo o resto? Lembra como éramos felizes? Das tantas noites em que fizemos da sala o nosso confessionário, onde passamos madrugadas inteiras contando segredos, conversando sobre tudo. Das tarde de filme de amor ou das partidas de futebol no videogame. Ou, ainda, das manhãs de faxina na casa; da sua mudança.

E o que somos hoje se não escravos desse sistema maldito, me diz? Em meio a todo esse turbilhão de compromisso onde fica agendado um momento só pra gente? Nada pode mudar tanto assim, não somos obrigados a viver sem paixão, acreditar que isso é normal, bobagem.

Tudo aqui gira e para na nossa completa alienação; as relações entre pessoas sempre são consequência. Ninguém quer, profundamente, conhecer ninguém. Todos nós sentimos medo de abrir mão dos planos. Você não sabe quantos ‘não-planos’ eu fiz pra nós dois.

Amor? amor pra mim é simples. Sentia amor naquelas noites em que dividíamos a sala: você assistindo jogo na Tv e eu estudando para prova do dia seguinte, enquanto devorávamos a pipoca; sem nos preocuparmos – momentaneamente – com a saúde ou com alguns quilinhos a mais. Amor eu sentia com as pequenas surpresas que você me fazia. Amor eu sentia quando conseguia fazer você sorrir com coisas idiotas e quando sentia que você estava inteiro, vivendo aquele momento, ali sim eu sentia amor…

Mas hoje, sinceramente, eu sinto saudade.

"O mundo inteiro acordar e a gente dormir"

Sim, tinhas razão; Jose Gonzalez e suas dedilhadas poéticas são mesmo uma ótima pedida para dias chuvosos! A chuva cai lá fora, e os pingos batem forte na janela, daquele jeitinho que me costuma hipnotizar; a madrugada está fria, mas aqui dentro tudo parece bem aquecido. Eu, como sempre, decido prolongar a noite. Enrolo para ir dormir, pois gosto da madrugada, ela sempre aguça pensamentos bons e a inspiração sempre chega de forma tranquila. Enquanto todos dormem, eu desperto a mente e o meu mundo se torna incrivelmente literário: a vida lá fora que caminha em silêncio e lentidão vira cena de filme; a música na vitrola ao fundo, a trilha sonora; e eu, sentada ao canto, a autora de todo o enredo. Percebeu? Voltei a escrever como se falasse sozinha. No fundo acho que é isso que acontece, meu corpo fala quando tenho um lápis em mãos, consigo transparecer toda beleza que vejo na vida, no cotidiano, nas pessoas. Aliás, já te contei como gosto de observá-las, não é? E hoje não está sendo diferente. Adiei a hora de ir pra cama só para poder te ver dormir. Poderia escrever um livro falando de você agora, assim, deitado de forma espaçosa sobre a cama. Incrível essa sensação boa de querer parar o tempo para tentar captar um momento inteiro em simples palavras. Será que isso é possível? Na verdade, pouco importa. Preocupo-me apenas em observá-lo e viver os acordes no ar. Sinto como se fosse capaz de materializar o amor quando olho pra você; e falharia caso ousasse achar palavras para descrever tudo isso. Então, calemo-nos. Afinal, são os gestos, os gestos que confirmam tudo. A palavra é meramente criação humana para a sua autopromoção. SILÊNCIO! Basta olhar….

…Deixa a madrugada passar, a chuva cair,
José Gonzalez tocar; eu acordarei em seu
s braços.

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