Janelas

Da minha janela só vejo outras janelas. Digo, também vejo pessoas. Mas é estranho, parece que estou assistindo a uma televisão que transmite sempre a mesma programação:

Aqui em frente, por exemplo, vejo um rapaz que religiosamente acende um cigarro com o descer do sol e, entre um trago e outro, se diverte olhando o trânsito barulhento se formar.

No andar de baixo, tem uma família que certamente é numerosa. Concluí isso pela quantidade de roupas que eles estendem diariamente; o volume é tanto que o varal não é suficiente e as calças jeans são penduradas na sacada.

Ao lado, crianças. Essas me divertem! Ouço as gargalhadas, os gritos e os choros, mas não as vejo, pois as janelas são bem protegidas.

La no alto, pouco acima do rapaz do cigarro, uma mulher que costuma aparecer enrolada em uma toalha e com outra prendendo os cabelos molhados.

E também tem aquela senhorinha da janela do canto. Essa vive gritando coisas aos familiares que já estão fora do prédio: “manda fulaninha vir me visitar!!!”.

Estou aqui pensando: o que será que a minha janela conta a todas essas pessoas? Espero que nada! Ou de repente, pouca coisa. Será que já sabem que eu sofro de insônia, deixo copos sujos espalhados pela casa, converso com a televisão enquanto assisto e que as vezes choro quando estou sozinha? Detesto essa distância toda. Queria eu mesmo contar um pouquinho de mim. É chato pensar que em cada janela existem pessoas e várias histórias que não conheço ainda. Que horror!!! Logo eu,  que cresci apreciando a sensação gostosa de sentar na calçada de casa e puxar papo com quem passava na rua. Um dia vou criar coragem e romper essa barreira de paredes e janelas que existem nos prédios. Sair de casa, escolher uma porta qualquer, tocar a campainha e, diferentemente de quando eu era criança, esperar e ver a porta abrir. Não deve ser assim tão difícil quanto parece. De repente, do outro lado também exista alguém querendo conversar.

– Oi, tudo bem!?

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