SABOTAR-SE

Tirou o dia para caminhar; estava tudo cinzento, ameaçando chover e as pessoas estavam estranhas naquele dia, pareciam frias, cautelosas, tristes; havia algo no ar que não circulava bem.
Deu seus primeiros passos e começou a pensar na vida – sentiu que aquilo deveria ser a última coisa a se pensar em um dia como aquele, mas pensou – pensou nas mudanças do trabalho que estavam por vir e nas tantas coisas que queria fazer diferente naquela nova equipe. Pensou no filho, em sua nova idade e na fase diferente que se aproximava: nova escola, nova rotina, novos amigos, trabalhos e apresentações escolares, outras dúvidas, outros segredos… pensou nisso e riu, achou divertida a possibilidade de estar se aproximando a típica ‘conversa de pai pra filho’. Depois pensou na namorada, aquela mulher que o acompanhava há alguns meses, mas que sentia como se a conhecesse e dividissem momentos há anos; pensou em como se sentia bem ao seu lado e riu mais uma vez, sentindo seu coração aquecer, quis ligar pra ela, mas não o fez, foi interrompido por um amigo que o vira passar. Ouviu de longe um chamado e olhou. Do outro lado da calçada, na mesma mesa de madeira do bar que costumava frequentar estava Otávio, um velho amigo, sentado com mais três rapazes que também conhecia – ‘de bar’, como costumava dizer. Por um segundo quis fingir que não o viu, mas desistiu da idéia um segundo após; atravessou a rua e procurou uma cadeira vazia para sentar-se com eles. Na mesa, garrafas vazias e cinzeiros cheios; pediram mais uma ‘daquele jeito’ e um copo limpo; encheram-no e o convidaram para um brinde. Beberam. Não só aquele, mais alguns. O rapaz já havia esquecido como se sentia bem depois da terceira, e dali, foi um pulo para voltar a tragar. Conversaram coisas de costume: música, política, filme, futebol… mulher. “Mulher”, ele pensou. Voltou a pensar na namorada, lembrou, depois de muito tentar, que ela havia dito que dormiria aquela noite em sua casa, olhou o celular – uma única chamada não atendida – preferiu não ligar nem voltar pra casa aquela noite, preferiu a companhia dos amigos. Do bar, foram para a casa do amigo tragar algo mais e de la, ficou la mesmo. Pensou que talvez ele não estivesse feliz, que se sentisse preso ou não estivesse preparado para assumir aquele relacionamento que, há alguns meses, havia se tornado algo muito sério. Sentiu raiva, sentiu ciúmes, sentiu medo, sentiu vontade de jogar tudo para o alto, mas preferiu dormir antes. No dia seguinte, acordou às 13. Retornou a ligação e falou com ela, ficou em dúvida, mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele foi mais rápido: – Precisamos conversar!

… continua.
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3 comentários sobre “SABOTAR-SE

  1. Oii flor.
    Andei sumida mas tô voltando pro mundo blog,e claro comentando aqui sempre a partir de agora.
    Ahhh eu quero a continuação!!Cara vc escreve muito bem *o* A-M-E-I
    Visite e comente à vontade sempre:
    marcadorfluorescente.blogspot.com
    =*

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