"Eu, que não sei guardar, te guardei"



(…) Acho que eu tremia também.

E me beijou, depois, na boca.
Ou eu beijei ele, não me lembro.
Ou nos beijamos juntos, ao mesmo tempo.

[Caio Fernando]
Deitou-se, com esperança de dormir. Em vão! Seu pensamento não parava um só segundo, não conseguia interrompê-lo nem direcioná-lo para um outro espaço, um outro momento, para um outro alguém. Tudo o que tentou fazer não lhe trouxe resultados satisfatórios e por isso resolveu deitar. Como de costume, o notbook estava ao lado: aberto, piscando, em branco. Não quis responder ninguém, olhou esperançosa e não o viu por lá. Fechou tudo, ligou o som e pegou seu caderno. A música que passava tinha a voz dele, o coração acelerou de novo, fechou os olhos! Sentiu saudade daquele momento mágico em que passaram juntos: das palavras, dos sorrisos, dos dedos entrelaçando os cabelos negros, da barba mal feita espetando o rosto, do dedilhar delicado que ele tinha ao segurar o violão, da voz suave, da boca vermelha, dos beijos doces….

Abriu os olhos na esperança que fosse um sonho, mas não, olhou a cadeira e ainda estava lá o casaco azul que ele gentilmente ofereceu para aquecê-la.
“Por favor, aceita. Deixa eu cuidar de você” Ele disse.
Em silêncio, respondeu: “Eu deixo…”.

Lembrava dos detalhes com tanto carinho que teve uma enorme vontade de ligar pra ele e revelar que nunca havia se sentido tão bem com alguém como se sentira naquela noite, à beira mar. Mas desistiu quando olhou o relógio e viu que já era madrugada; usou aquilo como desculpa para manter o que estava pensando em segredo, porém, no fundo, ela não queria mesmo ligar, morria de medo de parecer idiota.
Ele a deixava confusa, não conseguia decifrar seus olhos negros, jamais arriscaria dar um palpite sobre o que ele estava pensando. Era pra ela, uma incógnita. E não sabia, ainda, se deveria tentar desvendá-lo.
Prendeu sua atenção na música, aquela que cantaram juntos, lembrou do momento em que olharam o céu enquanto os rostos se tocavam e – quase que involuntariamente – voltou a rabiscar sobre amor.
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13 comentários sobre “"Eu, que não sei guardar, te guardei"

  1. (c.)
    “Guardei…Sem ter porque. Nem por razão ou coisa outra qualquer…
    Além de não saber como fazer pra ter um jeito meu de me mostrar.”

  2. As madrugadas são sempre motivos para deixar 'quase' tudo o que se pensa e o que se quer fazer em segredo ou para resolver depois…
    Quantas madrugadas passei em claro? Perdi as contas. As madrugadas perdidas me trouxeram maturidade que se adquire quando se aprende a esperar…
    Adorei a lembrança!
    Beijos.

  3. Quando me prendi na frase de Caio F., que abriu este, imaginei que o texto dançaria em outro rítmo, algo completamente diferente. E fui escorrendo por entre tuas linhas tão desenhadas e suspirando essa saudade e me vendo, nas entrelinhas. Senti um riso involuntário manchando meu rosto quando li “Deixa eu cuidar de você”. Se eu ouvisse, não demoraria a responder meu sim.

    Uma delícia esse canto aqui.
    Endereço anotado, saio sem bater. E volto.

    Um beijo.

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