Gotas que caem

Acordou querendo ficar na cama, olhou a janela e tudo ainda estava escuro, olhou o relógio e já marcava 9:30 da manhã. Achou estranho, mas voltando sua visão para a janela – tentando agora abrir mais os olhos e observar com atenção – percebeu as gotas que escorriam vidro a baixo. Gostava de olhar as gotas caindo, quando mais nova acreditava que elas apostavam corrida umas com as outras. Era domingo, de chuva, dia propício para os casais apaixonados usarem-na como desculpa e motivo para permanecerem em casa. ‘Um filme, um petisco, duas taças de vinho e dois corpos abraçados’, pensou nisso e a vontade de permanecer na cama cresceu. Lembrou que não tinha ninguém, seu relacionamento terminara já há alguns meses e desde então estava só. Não era do tipo de mulher que lamentava a solidão, até porque não se sentia só, pra falar a verdade ela gostava de se sentir independente e livre para esperar o dia em que seu coração batesse de verdade por alguém, enquanto isso não desperdiçava tempo: aproveitava tudo que mais gostava, na hora que quisesse, da forma que escolhesse. Aproveitava a família, os amigos e principalmente aproveitava a si e vivia bem. Mas em dias de chuva, algo acontecia com ela, voltava a ser apenas uma garota sensível e carente, que desejava colo, carinho e sorriso a dois.
Levantou, tomou um banho, vestiu sua roupa mais confortável e decidiu que seu domingo seria preenchido por música. Foi à cozinha, preparou pipoca e uma panela de brigadeiro, abriu todas as cortinas das portas de vidro da sala – a chuva estava mais forte que antes – e quando ia se sentar, o celular toca:

– Meu querido!
– Ah, que bom! Ainda está viva.

Ao telefone, um velho amigo que a conhecia como ninguém. Costumava aparecer sempre que ela se sentia só. Ela o chamava se anjo, por isso. Continuou:

– O dia está chuvoso, você em casa sozinha… imaginei que estivesse chorando enquanto atacava sozinha uma panela de brigadeiro.
– Não sou tão boba assim né! – olhou para a panela de brigadeiro e riu de si – mas e você, o que está fazendo?
– Estou segurando uma garrafa de vinho, seu vinil da Gal e quase me molhando todo, esperando apenas que alguém abra a porta.
-Alguém?

E antes que falasse algo mais, a chamada foi desligada e a campainha tocou. E lá estava ele, bem do jeito que falara ao telefone, mas sem especificar que vinha vestido com aquela calça jeans surrada, aquela camisa azul de tecido macio e de gola ‘v’ deixando à mostra o colar que havia lhe dado e com aquela sandália de coro que ela tanto gostava. Sorriram simultaneamente, beijou-lhe a face e logo foi entrando. Sentou frente à vitrola dela, abriu o armário com sua coleção de vinis antigos e começou a olhar alguns, tirando da ordem de propósito, só para provocá-la. Mas nem reparou! Enquanto isso, ela servia o vinho. Ele escolheu Jorge Bem e deixou tocar. Comiam, bebiam, conversavam e riam bastante. Ele deitado com suas costas largas sob o tapete verde da sala, com uma de suas pernas apoiada no joelho da outra; enquanto uma mãos segurava alguns vinis ( que rendia comentários sobre as capas e músicas ‘maneiras’ daquela época) a outra era mantida entrelaçada nos fios negros esparramados pelo tapete; enquanto ela – ao seu lado, deitada de bruço, balançando as pernas ao ritmo da música que tocava – lia trechos de um livro que comprara a pouco.
Eles se entendiam e se somavam de um jeito que se quer percebiam. Mas continuavam juntos, ligados por uma amizade tão grande e forte que nem eles sabiam rotular. Só sentiam a necessidade de estar por perto, como quer que fosse.

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4 comentários sobre “Gotas que caem

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