Sobre um fim de tarde

foto

Muito embora aquele fim de tarde estivesse me parecendo diferente de todos os outros, segui minha programação rotineira: parei tudo o que estava fazendo, tomei um banho gelado, coloquei um vestido bem confortável, peguei a toalha vermelha e fui ao quintal, estendê-la sob a sombra de uma árvore, para ler mais um livro indicado por algum professor. Comecei a leitura, porém minutos depois, minha atenção mudou de rumo; ouvi o toque suave de um violão bem dedilhado e uma voz baixinha caetaneando. Não resisti, fui olhar – há tempos não ouvia música naquela casa – nem acreditei quando o vi novamente. Mesmo estando muito diferente sem aqueles óculos e as espinhas que lhe acarretaram alguns apelidos quando mais novo, eu não tinha dúvidas que era ele. Aqueles olhos claros, cor de céu, eram inconfundíveis para mim. Continuavam com a mesma luz de quando os olhei pela última vez.
Luan?
Parou de dedilhar seu amigo fiel e me olhou. Não demorou muito para eu ver seu sorriso perfeito. Era ele.
– Não acredito… abelhinha!
Falou isso e veio correndo em direção ao pequeno muro que separava nossos quintais e, como um atleta – ainda segurando o violão – conseguiu pular. Pulou e me abraçou. Um abraço forte, acolhedor, que fez meu coração disparar. Tentando disfarçar o nervosismo, dei um tapa de leve em seu ombro e falei um pouco envergonhada:
Abelhinha!? Não acredito que ainda lembra-se disso.
– Como eu poderia esquecer você vestida de abelha em pleno halloween!? – rindo, continuou – entre tantos monstros, vampiros, bruxas, caveiras, lá estava você: a mais linda abelhinha.
– Você sabe que sempre tive medo do dia das bruxas.
– Sei também que você faz o melhor bolo de chocolate que já comi. Senti tanta falta do seu bolo lá na Europa.
– Não acredito que você passa 13 anos distante e tudo que consegue dizer é que sentiu falta do meu ‘bolo de chocolate’. Que falso!
Sentamos sob a sombra da mangueira e ficamos ali, conversando como duas crianças, porém trocando olhares de adultos. Ele deitou-se apoiando a cabeça sobre minhas pernas e, como já era de costume, pediu cafuné. Calada por alguns instantes olhava atentamente para os meus dedos envoltos em seus cabelos dourados. Pouco depois ele continuou contando lembranças do nosso passado: as travessuras, meus paqueras platônicos, a ex namoradinha dele, os vasos que quebramos, os segredos… Foi quando ele perguntou:
– Sarah, e o ‘piu’?
PIU?
– Não lembra do ‘piu’? Aquele passarinho que você cuidou enquanto ele estava com a asa machucada e que depois não queria deixá-lo ir.
– Nossa, sua memória está boa hoje ?
– Apeguei-me a elas para suportar os anos distante de você.
– Senti saudades agora.
– De mim?
– Do PIU! – ri, em vingança ao que ele tinha dito em relação ao bolo -Lembra como chorei no dia em que minha mãe obrigou que o soltasse? Você me levou ao sítio do seu avô e me convenceu de que ali seria o melhor lugar para fazê-lo e o livrei da gaiola. Foi difícil, mas acho que foi o melhor a fazer.
– Foi, foi sim.
– Chorei durante uma semana inteira, sentindo falta de ouvi-lo cantar pra mim.
– Pássaros foram feitos para voarem, minha querida. O lugar dele era outro.
-“Deixe tudo que você ama, livre. Não imponha regras nem condições para estar ao seu lado. Deixe que ele decida por si, o caminho que quer seguir. E não importa quão grande seja sua sede de liberdade e curiosidade a respeito do mundo. Caso ele a ame, escolherá estar ao seu lado. Se for amor verdadeiro, ele vai voltar”… Ele não me amava!
– Virou poeta agora? Antes, só eu escrevia…
– Tanta coisa mudou desde que você foi morar com seu pai.
– Chorou quando eu fui?
– Não fui à sua despedida, justamente por que não conseguir parar de chorar naquele dia. Aliás, chorei bem mais que na despedida do piu.
Ele riu, ficou um pouco calado, me encarou com aquele olhar intimidador e, antes que ele tivesse tempo de fazer outra pergunta, continuei:
– Chorei por muito tempo, senti falta até de te ouvir cantando desafinadas, as músicas que escrevia para suas amadas… Passei um mês olhando sua casa, da janela do meu quarto, com esperança que você pudesse ter voltado.
– É amor!
– Hã?
– Não está vendo? Teu passarinho voltou a cantar pra ti. Você o deixou livre e ele voltou. Conseguiu achar o caminho de casa. Olha pra mim, não está vendo? Estou aqui.
Não consegui responder nem pronunciar nada, meu coração disparou, minhas mãos estavam geladas… Ele continuava me olhando, só que dessa vez seus olhos estavam vermelhos, guardando com cuidado algumas lágrimas que queriam sair. Foi forte, respirou fundo e voltou a falar:
– Na noite que antecedeu minha viagem, fiquei treinando em frente ao espelho como te dizer o que eu sentia, mas você não apareceu…
De repente sua voz ficou falhada e não conseguiu mais segurar, algumas gotas percorreram sua face. Cheguei mais perto, acariciei seu rosto, enxuguei as lágrimas e disse:
– Desculpa Lu, não tive coragem. Não queria te ver partir, não conseguia imaginar que aquela seria a ultima vez que falaria contigo. Mas… o que ia me falar?
– Sabe aquelas músicas que eu escrevia? Todas elas eram pra você! Eu te amo, Sarah. Sempre amei você. Ia te dizer isso e pedir que você não me esquecesse, pois eu arrumaria um jeito de voltar. Por você, por mim, por nós…
Só precisei ouvir isso, imediatamente pulei em seus braços. E ali, sob aquela sombra e vigiados pelo mais belo fim de tarde, nos beijamos pela primeira vez.

Anúncios

12 comentários sobre “Sobre um fim de tarde

  1. É sabe, bonita história, e com um final bem gostoso né… tem uns pontos de destaque aí, como no início e no final… e eu nem gosto tanto de diálogos, mas você trabalha bem com eles. E depois vem me dizer que não sabe fazer contos; precisamos escrever algo juntos mesmo, só assim pra eu saber o que é um final feliz… beijo, até logo.

  2. Infinito foi esse minutinho que eu parei por aqui agora …

    Me deparei com um texto absolutamente simples, contudo absurdamente romântico, sincero.

    Eu li cada palavrinha aqui, senti cada sensação que Sara sentiu, daqui – como expectadora. A expectadora desse fim de tarde, sob essa sombra… Acho que até consegui imaginar e ouvir bem ao longe o “Piu” cantando. Acho que ele existe na memória de cada uma de nós! Sonhadoras, românticas e um pouco poetas. Não demorou, e Sarah encontrou o amor. E, eu sei… ele chegará pra ficar de vez em nós também.

    Boa semana, Fê… beijão

  3. Fernanda,

    Escondendo o jogo, né? Gostei muito do seu conto… É bem real, o amor que se revigora na partida… Lindo!
    Continue escrevendo… você tem um talento… foi uma bela narrativa!

    E disse que não sabia! ahh tá? Rs…
    beijos

deixe um rabiiisco seu

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s